Dona Alice e sua cachorra *

Dona Alice dizia que tinha dois metros de altura e chamava todo mundo de Umbizides.
– Bom dia, Dona Alice.
– Bom dia, Umbizides!
– Fiz aquela receita de pão que a senhora me passou, lembra?
– Receita de pão.
– Pois é… meus pães não ficaram nem parecidos com os seus.
– Você cuidou da farinha como falei?
– Cuidei, sim, mas… na verdade, não sei se entendi direito. Era para esfregar os dedos na farinha e ver se ela estava boa, era isso?
– Isso mesmo, mas tratando de ouvir o que a farinha dizia.
– Deve ter sido esse o problema. Não consegui ouvir nada!
– Com o tempo você aprende a ouvir, Umbizides.
– Dona Alice, me perdoe… Outra coisa… falaram que a senhora diz que tem dois metros de altura…
– E você acha que não tenho?
Dona Alice colocou a mão na cintura e perguntou:
– Daqui até o chão não tem um metro?
– Acho que tem.
– Então… daqui para cima deve ter outro!
E lá se foi Dona Alice, sorrindo em silêncio.
Dona Alice dizia que só conseguia pensar direito caminhando com sua cachorra.
– Boa tarde, Dona Alice.
– Boa tarde, Umbizides!
– Georgy Butka pediu que procurássemos a senhora.
– Sei, o açougueiro… você é quem chamam Anão e esse deve ser Bénya Krik.
– Isso, isso mesmo. Ele pediu que viéssemos falar com a senhora sobre os últimos acontecimentos.
– Venha, vamos todos caminhando enquanto você me conta sobre os tais acontecimentos… Mas fale como se escrevesse seu testamento: quanto menos palavras, menor o número de passos… e processos.
– Sou de Odessa, Bénya é das ruas, Butka é da vida e essencialmente somos livres. O Sr. Hatt e seus aliados representam o contrário disso tudo, ele é a guerra. O autoritário precisa de uma guerra para sobreviver.
– Entendi, Umbizides. E você sabe por que o açougueiro que é da vida pediu para vocês virem aqui?
– Já somos livres, agora teremos que ser muitos! Imagino que ele queira que a senhora e sua cachorra se juntem a nós.
– Butka não mandaria você buscar o que ele já tem.
– Ele pediu para virmos os dois.
– Ah… então é isso! – disse Dona Alice, parando de caminhar.
Satisfeita, colocou uma mão na marca de um metro e perguntou, apontando para os cães:
– Você viu como a dupla conversou?
– Não, sinceramente, não vi – respondeu o Anão.
– Eles já se entenderam! Missão cumprida! Voltem sempre que precisarem. Mas voltem, principalmente, quando acharem que não precisam – completou sorrindo.
Depois, chamando sua cachorra, Dona Alice começou seu caminho de volta:
– Venha, Prudência!

  • Capítulo de “Não me abandone” – página 53

Resenhas insólitas – Lolita

Lolita, Vladimir Nabokov.
Qualquer edição: não perca!

Sem o peso de definições sobre meus ombros, Humbert Humbert é estrangeiro nos USA, anarquista e tarado, Lolita, uma ninfeta, é sua paixão – essa é a história.

Um ponto interessante é o fato da classificação bibliográfica do livro ser “Romance norte-americano”.
Nabokov escreveu Lolita em inglês e, apesar de declarar que esse talvez fosse seu caso de amor com a língua inglesa, lamentou com a força de uma “tragédia pessoal” o abandono de seu idioma natural e as possibilidades e nuances que esse lhe oferecia.

Quanto à leitura propriamente dita, aqui vão breves e despretensiosas orientações de uso:

• leia o prefácio assinado por John Ray duas vezes. É bom e vai ajudar;
• navegue com tranquilidade e cuide com as expectativas criadas no primeiro terço da história;
• vista as roupas de Humbert Humbert ou qualquer dos seus nomes e siga os próximos dois terços; Nabokov sabe suas expectativas e escreveu sobre isso;
• quando você chegar nos capítulos 35 e 36 sua vida não será mais a mesma;
• leia o livro novamente.

Comprei minha edição no Sebo Itaim, Rua Clodomiro Amazonas, 112, em São Paulo, ao valor de 2F. Cada F vale R$ 5,00.

Reproduzo um trecho do posfácio “Sobre um livro intitulado Lolita”, escrito pelo autor. Valeria, sozinho, outros 2F.
Reproduzo e depois saio correndo.

Não escrevo nem leio obras de ficção com fins didáticos, e, a despeito da afirmação de John Ray, Lolita não traz nenhuma moral a reboque. Para mim, um romance só existe na medida em que me proporciona o que chamarei de volúpia estética, isto é, um estado de espírito ligado, não sei como nem onde, a outros estados de espírito em que a arte constitui a norma.

PS: Vladimir Nabokov e sua esposa eram caçadores de borboletas. Grande parte do livro foi escrito à noite ou em dias nublados, pouco adequados à caça.

 

Onde o sol se põe

Novo Oeste é minha cidade natal.
Novo Oeste fica a oeste de algum lugar, é quente o tempo todo e tinha o melhor muro do mundo para se sentar, pensar na vida e comer bergamotas.
Eu não sabia onde ficava o oeste, pouco sabia da vida, mas sabia muito bem onde ficava aquele muro alto, largo e que, à tardinha, recebia uma sombra perfeita.
Sentado ali eu via tudo: a Prefeitura, a igreja, o clube, a delegacia e, espichando o pescoço, a rodoviária e a bergamoteira.

Certo fim de tarde, inclinando o corpo para apanhar uma bergamota vi Iracyna fechando a rodoviária.
Sempre de jeans, sapato baixo e blusa preta, Iracyna, gerente da rodoviária, era uma mulher discreta e de olhar severo. Sorriso mesmo, só vendendo passagens.

Foi assim, na rua já deserta, empoleirado no muro com uma bergamota na mão que vi Iracyna se aproximar acompanhando uma moça que acabara de chegar à cidade.
– Para que lado fica o oeste? – perguntou a visitante levantando o cabelo e insinuando a nuca.
Iracyna parou, acarinhou o rosto da forasteira, encostou ela no muro, deu-lhe um beijo na boca e, colocando a mão por baixo da blusa da moça, disse:
– O oeste é onde o sol se põe e para onde corre minha mão.

Nunca mais esqueci onde fica o oeste.

Photo by ©Carla Zigon

Blau

Naqueles dias seu nome era Blau. Era jovem, inocente e a vida parecia rosa.

Naquele fatídico dia, na casa dos Hatt, todos despertaram quando o dia ainda não era dia e o cheiro de café tomava conta da casa. Saíram cedo levando a voz de comando do pai, os passos rápidos da mãe, os meninos com suas mochilas e o pequeno Blau, agora sem a coleira.

Blau lembra que o dia estava frio e ventava. Blau lembra também que o trajeto foi tão demorado quanto a vida que ele conhecia e que na van ninguém falava.
Depois, tudo aconteceu muito rápido.

O Sr. Hatt parou a van, abriu a porta e Blau foi empurrado pra fora. Tão rápido foi o desembarque – uma pata terminou dentro de uma lata com restos de tinta branca, quão rápida foi a arrancada da van na direção do vento. No vidro traseiro, dois pares de olhos fixos.

Com a pata suja e o coração acelerado, o pequeno Blau olhava para todos os lados e girava rapidamente sobre si mesmo tentando entender. Cheirava e ouvia, todo atenção.

O olfato perdeu o rastro, os ouvidos trouxeram o som do vento, o olhar não reconheceu ninguém, o dia ficou mais frio, a rua mais deserta, os muros começavam a crescer quando uma descarga de adrenalina trouxe o gelo da certeza.

A certeza de que a vida nunca mais seria a mesma.
Blau não era mais Blau, agora era um cão de rua com uma pata pintada.
– Eu, que dos amores meus só via vocês, por quê? – Pensou, cerrando os olhos.

Quando abriu os olhos, Bénya estava olhando fixo para ele.
A vida de Pata Branca não seria nunca a vida de Blau.

Photo by ©Carla Zigon

Esse texto compõe  o livro que provisoriamente tem o nome de “A Saga de Bénya Krik, um cão de rua, contada pela família que ele adotou”.