O Sucessor

Fomos adotados, eu e minha família, por um cachorro de rua chamado Bénya Krik.

Quando fomos adotados ele já tinha esse nome e eu ainda não sabia quem era Bénya Krik, mas isso é outra história.

O que interessa agora é que Bénya era um cão de rua e que um dia apareceu sentado na soleira de nossa porta. Sentou, temperamento forte, e só saiu dali quando aceitamos ser adotados por ele. Não bastou abrir a porta, Bénya somente entrou quando nos perfilamos todos a olhar para ele que, sem se fazer de rogado, passou a tropa em revista – nossa vida nunca mais foi a mesma.

Alegre, brincalhão, fiel, leal e esperto como o diabo, assim também era o Bénya. Digo “também” por que sua principal característica era ser sábio e cruel como um rei – daí o nome Bénya Krik, mas já foi dito que isso é outra história.

Bénya exercia sua majestade intervindo nas brigas de família, sentando ao lado dos que precisavam consolo, levando para passear quem estivesse com a alma agitada e, diariamente, mostrando com olhares, rosnados e latidos para toda a rua quem era o rei por ali.

Nos últimos tempos Bénya andava cansado e os passeios ficaram cada vez mais raros.
Surpreendentemente, duas semanas atrás, Bénya começou a nos levar para passear como há muito não fazia: todos os dias, e com passeios cada vez mais longos.

Essa rotina durou exatos 10 dias. Seguiu até o momento em que nosso rei fixou o olhar em um pequenino morador de rua de olhos luminosos. Só sossegou, entre latidos de mando, quando o pequenino cão, escoltado, entrou em nossa casa.

Bénya morreu no dia seguinte.
Agora temos o Sucessor.

Esse texto compõe  o livro que provisoriamente tem o nome de “A Saga de Bénya Krik, um cão de rua, contada pela família que ele adotou”.